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Suely Rolnik l Arquivo para uma obra-acontecimento

 

De 14 de Setembro a 20 de Novembro de 2011


Arquivo para uma obra-acontecimento

Suely Rolnik
curadoria

UMA OBRA RELACIONAL

A obra de Lygia Clark é internacionalmente reconhecida como uma das mais vigorosas criações da arte contemporânea. Desde seu início, consagrado à pintura e à escultura, até o último trabalho (Estruturação do Self), a artista persistiu na investigação de práticas estéticas conduzidas pelo corpo em sua potência de ser afetado pela tensão entre as forças que agitam a realidade em sua materialidade viva. Um modo de conhecimento do mundo desencadeador da pulsão criadora, como exigência ética. As obras produzidas como resposta a esta exigência teriam o poder de convocar esta potência corporal na subjetividade do “espectador”.

No entanto, até 1963, ainda era possível que a apreciação dos trabalhos da artista não mobilizasse esta experiência, limitando-se à fruição de sua visualidade pela retina. Isso, mesmo quando permitiam a “participação do espectador”, como é o caso de seus Bichos, nos quais a manipulação do objeto que a artista agrega na proposta desta obra pode ainda mobilizar apenas a fruição tátil ou motora, além da visual. A partir de então, Lygia Clark amplia cada vez mais o fôlego experimental de sua pesquisa, passando a criar proposições que dependem incontornavelmente daqueles que se dispõem a vivenciá-las: sua vulnerabilidade corporal às forças que se atualizam na obra é condição para que esta se realize. Impossível conhecê-la de outra maneira. O protocolo de ação e um ou mais objetos que compõem suas proposições são os meios para a realização da obra propriamente dita: um acontecimento que toma corpo na relação entre seus “experimentadores” e o mundo. São Objetos Relacionais, como a artista os chamou em sua última proposição. Nas criações de Lygia Clark a partir de 1963 revela-se, cada vez mais intensamente, a potência micropolítica e terapêutica de sua obra que pode ser detectada retrospectivamente desde seus trabalhos de pintura e escultura. Terapêutica, porque favorece o retorno do corpo na produção do conhecimento; uma espécie de bússola vital a nos conduzir. Micropolítica, porque tal recalque caracteriza a cultura instaurada internacionalmente pela Europa Ocidental como operação central de sua ação colonizatória no âmbito das formações do inconsciente no campo social.

Embora ocupem dois terços da trajetória da artista, as inúmeras proposições desenvolvidas ao longo destes 25 anos eram até recentemente pouco acessíveis ao público, dada a dificuldade de preservá-las e transmiti-las pelos meios tradicionais (objetos e documentação escrita e iconográfica). Esta é uma dificuldade que extrapola a obra de Lygia Clark e se coloca para uma grande variedade de dispositivos que artistas vem criando desde os anos 1960.

O presente arquivo foi concebido como uma das respostas possíveis a esse desafio: uma produção de memória a partir da convocação das sensações experimentadas nas proposições de Lygia Clark, em seu contexto cultural ou no convívio com a artista, buscando fazê-las pulsar no corpo das palavras dos entrevistados. Múltiplas e heterogêneas, estas vozes contribuem para restituir à obra de Lygia Clark sua potência inquietante e inovadora: tornar vivos seus efeitos na época em que foram pensadas, promovendo novos efeitos em nossa atualidade. Cabe a você encontrar as vozes que mais lhe permitam contagiar-se por esta força.

Suely Rolnik, psicanalista, crítica de arte e de cultura e curadora, é Professora Titular da PUC-SP, fundadora do Núcleo de Estudos da Subjetividade no Pós-Graduação de Psicologia Clínica. Membro do corpo docente do Programa de Estudios Independientes (PEI) no Museu d’Art Contemporani de Barcelona (MacBa), desde sua fundação em 2007.

Criadora de Arquivo para uma obra-acontecimento, projeto de pesquisa e ativação da memória corporal das proposições artísticas de Lygia Clark e seu contexto, no qual realizou 65 filmes de entrevistas no Brasil, na França, na Inglaterra e nos EUA. O arquivo foi o nervo central de uma retrospectiva da obra de Lygia Clark da qual Rolnik foi curadora e editora do catálogo com C. Diserens (Somos o molde. A você cabe o sopro. Lygia Clark, da obra ao acontecimento, Musée de Beaux-arts de Nantes, 2005, e Pinacoteca do Estado de São Paulo, 2006; ambos esgotados). Inúmeras matérias comentaram a exposição nos dois países: o jornal Libération e Folha de São Paulo (que lhe dedicaram duas páginas de seus respectivos cadernos culturais), o jornal Le Monde, a rádio France Culture, a revista francesa 02 e a inglesa Afterall, entre outros. Exposições de partes do arquivo com curadoria de Rolnik vem sendo realizadas em vários países. Na Bélgica, por iniciativa conjunta de 4 instituições: Performing Arts Research Training Studios - P.A.R.T.S e Galeria Jan Mot (Bruxelas, 2007) e Extra City - Center for Contemporary Art, Teatro Beursschouwburg (Antuérpia, 2007); na Espanha, por iniciativa do Ministério da Cultura do governo brasileiro, na ARCO (Madrid, 2008); na Alemanha, no IN TRANSIT 08 Performing Arts Festival - “Singularities”, na Haus der Kulturen der Welt (Berlim, 2008); na Inglaterra, na exposição Irritated Materials no Raven Row (Londres, 2010), nos Estados Unidos na galeria experimental Cage que foi inaugurada com uma exposição do arquivo que permanecerá por um ano (Nova York, 2011) e, no Brasil, no MUBE (Uberlândia, 2008) e no Centro Cultural Banco do Nordeste (Fortaleza, 2010). Por ocasião do lançamento da caixa, outras exposições do arquivo estão sendo realizadas: no SESC-SP (São Paulo, 18/08 a 25/09) e no MAMAM (Recife, de 14/09 a 20/11); ambas apresentam os filmes ao público brasileiro, pela primeira vez com legendagem em português. O lançamento da caixa francesa será no Centre Pompidou (Paris, 2011). O livreto de autoria de Rolnik, escrito para integrar-se a esta caixa, acaba de ser publicado na série de notebooks da Documenta 13.

Suely Rolnik, psicanalista, crítica de arte e de cultura e curadora, é Professora Titular da PUC-SP, fundadora do Núcleo de Estudos da Subjetividade no Pós-Graduação de Psicologia Clínica. Membro do corpo docente do Programa de Estudios Independientes (PEI) no Museu d’Art Contemporani de Barcelona (MacBa), desde sua fundação em 2007. Foi docente convidada do Master Oficial en Historia del Arte Contemporáneo y Cultura Visual, Universidad Autónoma de Madrid e Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía - MNCARS (2008-2009) e pesquisadora convidada pela Fondation de France, no Institut National de l'Histoire de l'Art (INHA), em 2007. Viveu exilada em Paris de 1970 a 1979, onde diplomou-se em Ciências Sociais, Filosofia e Psicologia. Sua investigação enfoca principalmente as políticas de desejo em diferentes contextos, abordadas de um ponto de vista teórico transdidsciplinar e indissociável de uma pragmática clínico-política; desde os anos 1990, atua sobretudo no campo da arte contemporânea, onde tem ampla atuação internacional na produção de pensamento, com publicações, conferências, seminários e participação em colóquios. Desde 2008, decidiu privilegiar o Brasil e a América Latina em sua itinerância, tendo participado, entre outros, da fundação da Rede Conceitualismos do Sul, composta atualmente de 50 investigadores de todo o continente. Entre suas publicações, escreveu em co-autoria com Félix Guattari, Micropolítica. Cartografias do desejo (Vozes, 1986; 11ª ed. 2011), cuja 7ª edição revista e ampliada (2005) foi publicada em 5 países.

 

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